Novo Turismo Novo

Novo Turismo Novo
Ao escolhermos Turismo Novo, interessava-nos encontrar pistas para a razão da recuperação cíclica das antigas representações da nacionalidade. Quisemos encontrar linhas orientadoras do contexto passado, doses de ideologia e condições determinantes no processo de trabalho dos seus criadores.
Repensar esta proposta passados 35 anos permite-nos olhar para as mudanças que se avistavam e questionar de que modo reflectem actualmente a nossa identidade, naquilo que exportamos e promovemos como sendo só nosso. O artigo no Diário de Lisboa ilustrado por JAM reivindicava uma mudança de atitude, uma intervenção reconstrutiva social e politicamente. Este material conta histórias e vontades: O SIMPÁTICO INOPERANTE Teve a sua época. Fez o seu tempo. Não decidir nada era sinónimo de não cometer erros de decisão. Ser actuante era sinónimo de ser antipático. Ser incómodo. Para manter um lugar era necessário não agitar demasiado. Fez escola. Até que chegou a liberdade. Veio a hora das adesões eficazes. Dos que se identificam com a democracia. Mas que seJAM activos. É esse o preço da liberdade. Não se compadece com os inoperantes, por mais simpáticos que eles seJAM. Os ineficazes têm o direito de existir. Têm a sua liberdade. Mas não podem impedir a liberdade dos outros. Dos actuantes. Daqueles que se expõem à crítica das suas decisões. É destes que o Turismo precisa. É destes que o Turismo espera. Quem esperou tanto tempo pode esperar mais alguns dias. Mas poucos. 14
Dos variados caminhos tomados pelo turismo, subsiste em muitos de nós uma procura de identificação, algumas vezes forçada. Como se quiséssemos a todo o custo resgatar uma identidade “autêntica e genuína”. Em muita da promoção turística pós Estado Novo e pós revolução, permanece um imaginário que se prende em lugares comuns da paisagem portuguesa—não muito diferente da projectada por Ferro. É por isso difícil pensarmos em identidade de um país ao tentar resgatar uma ideia de singularidade, quando a realidade é plural e diversificada. O que não aconteceu de facto na promoção do turismo em Portugal foi essa reflexão—porque não soubemos reflectir sobre a história do Estado Novo—e essa recusa levou-nos, durante muito tempo, a tomar um caminho diferente do que seguíamos até então, sem alterações na raíz daquilo que promovíamos. A fotografia, que começou a ser um meio utilizado por Ferro e pelo SNI em cartazes e material turístico 15, é actualmente o meio de eleição em todas as campanhas turísticas. A ilustração, provavelmente por ser um meio menos “real”, pouco pragmático, foi praticamente abandonada.
Ainda hoje, não sabemos como representar a diversidade portuguesa. Não somos só galos de Barcelos e nenhuma campanha de “bom gosto” que pretenda embelezar esta ideia diz o contrário. Continuamos ainda hoje ancorados a uma representação portuguesa pobre em diversidade. Não podemos esquecer que o turismo é uma ferramenta política do estado e ao serviço do estado, embrenhada em complexos significados e extensos discursos de justificação. Uma campanha não é só uma simples campanha. Quando se trata de Turismo, e de falar em nome de um país, a questão torna-se ainda mais complexa.
Turismo é sinónimo de promoção, numa fabricação que pretende mostrar o melhor de nós, aquilo que nos distingue, que nos torna especiais e apetecíveis. Em 2007, surge um exemplo mais recente desta problemática—a campanha Portugal: Europe’s West Coast—onde várias figuras de referência promovem Portugal. O tipo de campanha é semelhante a uma proposta da Hamilton Wright Organization de 1961 encontrada na documentação do SNI 16—que sugeria serem escolhidos Portugueses de referência que poderiam servir de modelo aos ideais da nação. Sem querer entrar nas habituais polémicas sobre quem nos representa—são sempre apenas uma parte de um todo muito mais vasto— foi uma tentativa de mostrar uma imagem contemporânea dos portugueses. Modernidade, tecnologia, inovação, empreendorismo, competitividade e valor de mercado—por detrás das imagens, são as ideias do presente que tentam sobrepor-se aos ideiais do passado. Quando as ideias construídas sobre nós não são as melhores, a identidade não se compadece com o lucro. Podemos criar narrativas mais favoráveis à promoção turística actual, podemos omitir o passado e operar a partir do presente. É até mais justo, o presente é aquilo de que podemos prestar contas. Mas não podemos esquecer a nossa herança histórica.
Apesar de tudo ficamos necessariamente com uma sensação de que uma nova “capa de brilho” (17) ofusca toda a simbologia ainda assim pobre, e com a qual dificilmente encontramos afinidade e identificação. O SNI conduziu as suas campanhas de forma controladora e obstinada, mas esforçou-se em fazer uma escola. Foi um projecto ambicioso, apostou no valor de muitos cartazistas, artistas gráficos, ilustradores, fotógrafos, arquitectos, que construíram uma imagem eficaz—intemporal?
O design é um indicador do “estado das coisas” e da forma como a sociedade absorve a inovação (ou talvez seja a novidade), nessa tentativa de nos mostrarmos “actualizados”, de termos preocupações de “design”. Perdeu-se gradualmente o sentido de militância; a euforia deu lugar à quebra dos laços de identidade 18 que anteriormente eram forçados em simbologias nas quais já não nos revemos e às quais tentamos muitas vezes escapar. Talvez seja na margem—e o trabalho de JAM foi no fim de contas uma proposta não institucional—que muitas das vezes, e nas condições mais difíceis (com menos recursos), possam surgir outras propostas. Projectos que, mesmo sem emblemas nacionalistas, representam a nossa identidade cultural e mostram mais da forma como operamos e como somos.

Diário de Lisboa, 19 de Maio de 1974. Turismo Novo, capa de João Abel Manta

Diário de Lisboa, 19 de Maio de 1974. Turismo Novo, capa de João Abel Manta


Ao escolhermos Turismo Novo, interessava-nos encontrar pistas para a razão da recuperação cíclica das antigas representações da nacionalidade. Quisemos encontrar linhas orientadoras do contexto passado, doses de ideologia e condições determinantes no processo de trabalho dos seus criadores.

Repensar esta proposta passados 35 anos permite-nos olhar para as mudanças que se avistavam e questionar de que modo reflectem actualmente a nossa identidade, naquilo que exportamos e promovemos como sendo só nosso. O artigo no Diário de Lisboa ilustrado por João Abel Manta (JAM)  reivindicava uma mudança de atitude, uma intervenção reconstrutiva social e politicamente. Este material conta histórias e vontades: “O SIMPÁTICO INOPERANTE Teve a sua época. Fez o seu tempo. Não decidir nada era sinónimo de não cometer erros de decisão. Ser actuante era sinónimo de ser antipático. Ser incómodo. Para manter um lugar era necessário não agitar demasiado. Fez escola. Até que chegou a liberdade. Veio a hora das adesões eficazes. Dos que se identificam com a democracia. Mas que sejam activos. É esse o preço da liberdade. Não se compadece com os inoperantes, por mais simpáticos que eles sejam. Os ineficazes têm o direito de existir. Têm a sua liberdade. Mas não podem impedir a liberdade dos outros. Dos actuantes. Daqueles que se expõem à crítica das suas decisões. É destes que o Turismo precisa. É destes que o Turismo espera. Quem esperou tanto tempo pode esperar mais alguns dias. Mas poucos.” (1)

Dos variados caminhos tomados pelo turismo, subsiste em muitos de nós uma procura de identificação, algumas vezes forçada. Como se quiséssemos a todo o custo resgatar uma identidade autêntica e genuína. Em muita da promoção turística pós Estado Novo e pós revolução, permanece um imaginário que se prende em lugares comuns da paisagem portuguesa—não muito diferente da projectada por Ferro. É por isso difícil pensarmos em identidade de um país ao tentar resgatar uma ideia de singularidade, quando a realidade é plural e diversificada. O que não aconteceu de facto na promoção do turismo em Portugal foi essa reflexão—porque não soubemos reflectir sobre a história do Estado Novo—e essa recusa levou-nos, durante muito tempo, a tomar um caminho diferente do que seguíamos até então, sem alterações na raíz daquilo que promovíamos. A fotografia, que começou a ser um meio utilizado por Ferro e pelo SNI em cartazes e material turístico, é actualmente o meio de eleição em todas as campanhas turísticas. A ilustração, provavelmente por ser um meio menos real, pouco pragmático, foi praticamente abandonada.

Ainda hoje, não sabemos como representar a diversidade portuguesa. Não somos só galos de Barcelos e nenhuma campanha de bom gosto que pretenda embelezar esta ideia diz o contrário. Continuamos ainda hoje ancorados a uma representação portuguesa pobre em diversidade. Não podemos esquecer que o turismo é uma ferramenta política do estado e ao serviço do estado, embrenhada em complexos significados e extensos discursos de justificação. Uma campanha não é só uma simples campanha. Quando se trata de Turismo, e de falar em nome de um país, a questão torna-se ainda mais complexa.

Turismo é sinónimo de promoção, numa fabricação que pretende mostrar o melhor de nós, aquilo que nos distingue, que nos torna especiais e apetecíveis. Em 2007, surge um exemplo mais recente desta problemática—a campanha Portugal: Europe’s West Coast—onde várias figuras de referência promovem Portugal. O tipo de campanha é semelhante a uma proposta da Hamilton Wright Organization de 1961 encontrada na documentação do SNI—que sugeria serem escolhidos Portugueses de referência que poderiam servir de modelo aos ideais da nação. Sem querer entrar nas habituais polémicas sobre quem nos representa—são sempre apenas uma parte de um todo muito mais vasto— foi uma tentativa de mostrar uma imagem contemporânea dos portugueses. Modernidade, tecnologia, inovação, empreendorismo, competitividade e valor de mercado—por detrás das imagens, são as ideias do presente que tentam sobrepor-se aos ideiais do passado. Quando as ideias construídas sobre nós não são as melhores, a identidade não se compadece com o lucro. Podemos criar narrativas mais favoráveis à promoção turística actual, podemos omitir o passado e operar a partir do presente. É até mais justo, o presente é aquilo de que podemos prestar contas. Mas não podemos esquecer a nossa herança histórica.

Apesar de tudo ficamos necessariamente com uma sensação de que uma nova capa de brilho (2) ofusca toda a simbologia ainda assim pobre, e com a qual dificilmente encontramos afinidade e identificação. O SNI conduziu as suas campanhas de forma controladora e obstinada, mas esforçou-se em fazer uma escola. Foi um projecto ambicioso, apostou no valor de muitos cartazistas, artistas gráficos, ilustradores, fotógrafos, arquitectos, que construíram uma imagem eficaz—intemporal?

O design é um indicador do “estado das coisas” e da forma como a sociedade absorve a inovação (ou talvez seja a novidade), nessa tentativa de nos mostrarmos “actualizados”, de termos preocupações de “design”. Perdeu-se gradualmente o sentido de militância; a euforia deu lugar à quebra dos laços de identidade 18 que anteriormente eram forçados em simbologias nas quais já não nos revemos e às quais tentamos muitas vezes escapar. Talvez seja na margem—e o trabalho de JAM foi no fim de contas uma proposta não institucional—que muitas das vezes, e nas condições mais difíceis (com menos recursos), possam surgir outras propostas. Projectos que, mesmo sem emblemas nacionalistas, representam a nossa identidade cultural e mostram mais da forma como operamos e como somos.

(1) Excerto do texto A hora é de dinamismo, José Vacondeus. Diário de Lisboa,19 de Maio de 1974, pág. 25 e 26, inserido num espaço semanal sobre turismo, foi acompanhado por uma carta aberta da Associação dos Directores de Hotéis de Portugal, enviada ao jornal como resposta ao artigo da semana anterior, em que Vacondeus defendia que a grande afluência de turistas que viriam a Portugal após o 25 de Abril, poderia ser desastrosa dada a capacidade de resposta limitada da hotelaria.

(2) “No entanto, a libertação da ditadura deixou um vazio que viria a ser preenchido pela busca duma identidade nacional autêntica — redescobrindo ou reinventando a história de Portugal, desembaraçando a teia das diferenças étnicas e culturais, que tinham estado escondidas atrás de um verniz espesso de ideologia nacionalista. (…) Temos, no entanto que reconhecer, que a reflexão sobre a identidade nacional tem sido interpretada por vezes literalmente, pelo uso de capas com brilho para reflectir a vaidade do cliente — ou a cara do designer. (…) Há vinte e cinco anos, o director de uma agência de publicidade poderia informar que não havia mercado para tal, no sentido moderno, em contrapartida houve e ainda há, felizmente, bastantes mercados no país com verdadeira fruta e legumes, não normalizada, porém belíssima de se ver e ainda melhor de se saborear.” Robin Fior, Revista Camões, 1999

(Texto retirado da nossa publicação Portugal Imaginado no âmbito da exposição Timeless integrada na ExperimentaDesign09 e patente no Museu do Oriente, Lisboa.

Isto não é nada disto!

Este blogue começou pela necessidade de actualização, rápida e mais ou menos constante, das nossas informações de dissertação final de curso. O nome deste blogue começou por ser uma brincadeira com a ideia de tese de licenciatura, que nunca chegaria a ser pensada como tal… Sempre ouvimos histórias da caça à tese plagiada na internet, por isso pareceu-nos divertido não enganar ninguém – o título esclarecia todas as dúvidas. Não haveria aqui material sério feito por especialistas numa qualquer universidade de referência. Esta seria uma forma prática para escrever, alterar informação, e assim, manter o contacto com os professores orientadores. Mais do que isso, este meio serviria o compromisso pessoal para que a tese fosse possível, numa altura que já estava em apuros.

Antes disto havia este cartaz feito há dois anos atrás (agora três anos atrás), propositadamente para a exposição de finalistas, a primeira, da ESAD de Caldas da Rainha. A exposição era representativa de todos os cursos da escola, do design gráfico e multimédia, às artes plásticas, o design industrial e cerâmico. Nessa altura, não eramos finalistas. Mas para ocupar algum espaço ainda sem destino, a mostra estendeu-se às turmas de quarto ano – uma contribuição – porque os alunos finalistas interessados e respectivos trabalhos eram poucos, visto que a maioria preocupava-se mais em arranjar emprego e desertar dali para fora. 

O cartaz a expor deveria ser representativo da identidade gráfica individual de cada aluno/a. Perante um briefing deste género, foi inevitável perguntar: será que identidade gráfica neste pedido estará, com pudor, como sinónimo de estilo/corrente formal, aplicável como uma fórmula a qualquer trabalho independentemente do seu conteúdo, objectivo e contexto?…que o aluno designer tenderá a adoptar em projectos futuros?.. ou é o que se poderá esperar de cada designer/autor, um comprovativo ao mesmo tempo, que um compromisso?!.. auto-promoção?… como se transpõe para o ambiente de exposição um projecto de design gráfico, concebido para um tempo e lugar específicos distintos do que se apresenta?… e se o projecto a expor não existir para outro contexto que não o da exposição de finalistas, isto é, tratava-se de uma encomenda para a exposição.?…ou se calhar só tinhamos de fazer um logótipo e o estacionário para a nossa futura empresa..?!!! :-8#!”*
Porque depois de uma ano de trabalho de projectos conjuntos, qualquer que fosse a interpretação de identidade gráfica, e a sua configuração visual, ela seria partilhada e colaborativa. Com esta resposta quissemos provocar as noções de personalidade associadas normalmente a um tipo de design meramente ilustrativo.
O nome deste blogue é também uma referência a esse cartaz.