Novo Turismo Novo

Diário de Lisboa, 19 de Maio de 1974. Turismo Novo, capa de João Abel Manta
Ao escolhermos Turismo Novo, interessava-nos encontrar pistas para a razão da recuperação cíclica das antigas representações da nacionalidade. Quisemos encontrar linhas orientadoras do contexto passado, doses de ideologia e condições determinantes no processo de trabalho dos seus criadores.
Repensar esta proposta passados 35 anos permite-nos olhar para as mudanças que se avistavam e questionar de que modo reflectem actualmente a nossa identidade, naquilo que exportamos e promovemos como sendo só nosso. O artigo no Diário de Lisboa ilustrado por João Abel Manta (JAM) reivindicava uma mudança de atitude, uma intervenção reconstrutiva social e politicamente. Este material conta histórias e vontades: “O SIMPÁTICO INOPERANTE Teve a sua época. Fez o seu tempo. Não decidir nada era sinónimo de não cometer erros de decisão. Ser actuante era sinónimo de ser antipático. Ser incómodo. Para manter um lugar era necessário não agitar demasiado. Fez escola. Até que chegou a liberdade. Veio a hora das adesões eficazes. Dos que se identificam com a democracia. Mas que sejam activos. É esse o preço da liberdade. Não se compadece com os inoperantes, por mais simpáticos que eles sejam. Os ineficazes têm o direito de existir. Têm a sua liberdade. Mas não podem impedir a liberdade dos outros. Dos actuantes. Daqueles que se expõem à crítica das suas decisões. É destes que o Turismo precisa. É destes que o Turismo espera. Quem esperou tanto tempo pode esperar mais alguns dias. Mas poucos.” (1)
Dos variados caminhos tomados pelo turismo, subsiste em muitos de nós uma procura de identificação, algumas vezes forçada. Como se quiséssemos a todo o custo resgatar uma identidade autêntica e genuína. Em muita da promoção turística pós Estado Novo e pós revolução, permanece um imaginário que se prende em lugares comuns da paisagem portuguesa—não muito diferente da projectada por Ferro. É por isso difícil pensarmos em identidade de um país ao tentar resgatar uma ideia de singularidade, quando a realidade é plural e diversificada. O que não aconteceu de facto na promoção do turismo em Portugal foi essa reflexão—porque não soubemos reflectir sobre a história do Estado Novo—e essa recusa levou-nos, durante muito tempo, a tomar um caminho diferente do que seguíamos até então, sem alterações na raíz daquilo que promovíamos. A fotografia, que começou a ser um meio utilizado por Ferro e pelo SNI em cartazes e material turístico, é actualmente o meio de eleição em todas as campanhas turísticas. A ilustração, provavelmente por ser um meio menos real, pouco pragmático, foi praticamente abandonada.
Ainda hoje, não sabemos como representar a diversidade portuguesa. Não somos só galos de Barcelos e nenhuma campanha de bom gosto que pretenda embelezar esta ideia diz o contrário. Continuamos ainda hoje ancorados a uma representação portuguesa pobre em diversidade. Não podemos esquecer que o turismo é uma ferramenta política do estado e ao serviço do estado, embrenhada em complexos significados e extensos discursos de justificação. Uma campanha não é só uma simples campanha. Quando se trata de Turismo, e de falar em nome de um país, a questão torna-se ainda mais complexa.
Turismo é sinónimo de promoção, numa fabricação que pretende mostrar o melhor de nós, aquilo que nos distingue, que nos torna especiais e apetecíveis. Em 2007, surge um exemplo mais recente desta problemática—a campanha Portugal: Europe’s West Coast—onde várias figuras de referência promovem Portugal. O tipo de campanha é semelhante a uma proposta da Hamilton Wright Organization de 1961 encontrada na documentação do SNI—que sugeria serem escolhidos Portugueses de referência que poderiam servir de modelo aos ideais da nação. Sem querer entrar nas habituais polémicas sobre quem nos representa—são sempre apenas uma parte de um todo muito mais vasto— foi uma tentativa de mostrar uma imagem contemporânea dos portugueses. Modernidade, tecnologia, inovação, empreendorismo, competitividade e valor de mercado—por detrás das imagens, são as ideias do presente que tentam sobrepor-se aos ideiais do passado. Quando as ideias construídas sobre nós não são as melhores, a identidade não se compadece com o lucro. Podemos criar narrativas mais favoráveis à promoção turística actual, podemos omitir o passado e operar a partir do presente. É até mais justo, o presente é aquilo de que podemos prestar contas. Mas não podemos esquecer a nossa herança histórica.
Apesar de tudo ficamos necessariamente com uma sensação de que uma nova capa de brilho (2) ofusca toda a simbologia ainda assim pobre, e com a qual dificilmente encontramos afinidade e identificação. O SNI conduziu as suas campanhas de forma controladora e obstinada, mas esforçou-se em fazer uma escola. Foi um projecto ambicioso, apostou no valor de muitos cartazistas, artistas gráficos, ilustradores, fotógrafos, arquitectos, que construíram uma imagem eficaz—intemporal?
O design é um indicador do “estado das coisas” e da forma como a sociedade absorve a inovação (ou talvez seja a novidade), nessa tentativa de nos mostrarmos “actualizados”, de termos preocupações de “design”. Perdeu-se gradualmente o sentido de militância; a euforia deu lugar à quebra dos laços de identidade 18 que anteriormente eram forçados em simbologias nas quais já não nos revemos e às quais tentamos muitas vezes escapar. Talvez seja na margem—e o trabalho de JAM foi no fim de contas uma proposta não institucional—que muitas das vezes, e nas condições mais difíceis (com menos recursos), possam surgir outras propostas. Projectos que, mesmo sem emblemas nacionalistas, representam a nossa identidade cultural e mostram mais da forma como operamos e como somos.
(1) Excerto do texto A hora é de dinamismo, José Vacondeus. Diário de Lisboa,19 de Maio de 1974, pág. 25 e 26, inserido num espaço semanal sobre turismo, foi acompanhado por uma carta aberta da Associação dos Directores de Hotéis de Portugal, enviada ao jornal como resposta ao artigo da semana anterior, em que Vacondeus defendia que a grande afluência de turistas que viriam a Portugal após o 25 de Abril, poderia ser desastrosa dada a capacidade de resposta limitada da hotelaria.
(2) “No entanto, a libertação da ditadura deixou um vazio que viria a ser preenchido pela busca duma identidade nacional autêntica — redescobrindo ou reinventando a história de Portugal, desembaraçando a teia das diferenças étnicas e culturais, que tinham estado escondidas atrás de um verniz espesso de ideologia nacionalista. (…) Temos, no entanto que reconhecer, que a reflexão sobre a identidade nacional tem sido interpretada por vezes literalmente, pelo uso de capas com brilho para reflectir a vaidade do cliente — ou a cara do designer. (…) Há vinte e cinco anos, o director de uma agência de publicidade poderia informar que não havia mercado para tal, no sentido moderno, em contrapartida houve e ainda há, felizmente, bastantes mercados no país com verdadeira fruta e legumes, não normalizada, porém belíssima de se ver e ainda melhor de se saborear.” Robin Fior, Revista Camões, 1999
(Texto retirado da nossa publicação Portugal Imaginado no âmbito da exposição Timeless integrada na ExperimentaDesign09 e patente no Museu do Oriente, Lisboa.
Portugal Imaginado na EXD09


Somos participantes da exposição da ExperimentaDesign 09—Timeless—comissariada pelo Frederico Duarte e pelos Pedrita patente no Museu do Oriente até dia 8 de Novembro.
Partimos do trabalho de João Abel Manta para publicar um pequeno caderno a que demos o nome de Portugal Imaginado:
A identidade de um país é construída através da representação de um imaginário colectivo idealizado, evidente nas imagens de promoção turísticas. As imagens/lugares partem da história e da memória fabricando códigos que perpetuam essa imaginação colectiva. João Abel Manta propõe um “Turismo Novo”, duas composições fotográficas (Algarve e Braga) publicadas no Diário de Lisboa em Maio de 1974. JAM apropria-se de imagens de divulgação turística identificadas com a divulgação feita pela Secretaria Nacional de Informação para aí inscrever, numa atitude de rebelião, os ideais da revolução. O que importa aqui evidenciar é como a acção de JAM propõe uma nova leitura turística—o graffiti/mural está ligado ao 25 de Abril, sendo uma marca da inscrição, característica contrária à ordem e limpeza destacadas nos cartazes do SNI. Diz-se que JAM teria uma forma rápida de trabalhar e de reagir aos acontecimentos. É fácil imaginar o entusiasmo que contaminou o processo, a urgência, por detrás do projecto…
Mais sobre a exposição Timeless (e também sobre o nosso projecto) pode ser lido na conversa entre os comissários, Aurelindo Jaime Ceia e Eduardo Afonso Dias.
Cotas ou notas marginais
Durante anos Portugal viveu uma ditadura, já sabemos. Durante anos, os designers (artistas/ilustradores gráficos) sabiam que nunca poderiam utilizar como linguagem, a clareza ou transparência de opiniões, porque ou perderiam trabalho, ou pior, seriam vítimas de perseguições políticas. Isto manifestou-se ao nível individual, primeiro que tudo, e consequentemente alastrou-se à prática. Só um indivíduo realmente livre poderá fazer um trabalho igualmente livre. Muitas vezes, os caminhos encontrados para fugir a esta encruzilhada, foram, como já vimos, caminhos paralelos ou marginais, feitos a partir de pequenos apontamentos mais ou menos visíveis. Nunca se podiam tomar caminhos contrários.
Com o 25 de Abril muita coisa muda, o discurso já não precisa de ser tímido ou disfarçado, e pode finalmente gritar, manifestar-se, impor-se. Acontece que, num país em que durante anos foi negado este direito, e depois da excitação inicial, passa naturalmente por uma adaptação a uma nova realidade. Somos finalmente livres, mas o que vamos fazer com o novo estado que adquirimos? Adquirimos realmente? Ainda há tanta coisa para finalmente poder reivindicar…
O design torna-se assim ferramenta da acção política e em nenhum momento da nossa história tinhamos assistido a tamanha manifestação de opinião. A rua torna-se o espaço por excelência da expressão gráfica, todos os espaços, são espaços de manifestação. Recorre-se também a outros suportes diferentes do cartaz, como as pinturas murais, os stencils, os autocolantes… Não houveram regras e inclusivé os monumentos públicos foram usados como veículo de acção e propagação. Esta explosão de grafismo de rua é resultado, também, da escassez de meios e porque geralmente este tipo de comunicação é rápido e económico. Muitos destes cartazes surgiram por iniciativa individual, numa altura em que, produzir mensagens visuais tornava-se então, uma atitude tão espontânea como falar. Nos cafés, nos locais de trabalho, nas ruas, surgiam mensagens de populares e cidadãos anónimos, que, muitas vezes manualmente, escreviam as mensagens mais apaixonadas, cómicas e políticas. Além do consequente desenvolvimento de uma corrente vernacular, inconsciente, que ganhava características muito próprias e populares, nasciam também inúmeros cartazes de todos aqueles autores que até aqui, estavam mais ou menos encobertos, como é o caso de João Abel Manta. Num cartaz de 1975, uma nova versão dos cartazes de propaganda do SNI, ao Algarve, está escrito Turismo novo e SNI tem um riscado por cima. Abel Manta explora precisamente esta nova realidade pictórica da paisagem portuguesa, coberta de inscrições nas paredes. Este projecto mostra ao mesmo tempo uma reflexão sobre aquela que era a publicidade do regime (não a esquece) para a partir desta mostra a nova situação do país, proclamando também ele (autor e cartaz) os mesmos ideais políticos.
Esta viragem, até à altura nunca experimentada, permite aos designers desenvolver novos tipos de linguagem e usufruir de códigos que não possuíam. Isto levou tempo. Este período, imediatamente posterior ao 25 de Abril, foi por excelência, o período da inscrição, depois de anos de não inscrição. Mas podemos realmente, e depois de tantos anos de ditadura, passar para um cenário oposto? Parece-nos que, esta vontade de inscrição existiu de facto, nas inúmeras manifestações populares, mas passada a excitação/desilusão inicial voltamos ao que nos ensinaram ser. Ainda hoje, subsiste em nós esse esmagamento.
Porque será mais fácil escrever sobre o 25 de Abril? Talvez pela construção idealizada com que imaginamos os acontecimentos e, esta idealização, que temos sobre este determinado momento, que não vivemos, inspira-se sobretudo no material visual deste período. Este material conta histórias e vontades.
“No entanto, a libertação da ditadura deixou um vazio que viria a ser preenchido pela busca duma identidade nacional autêntica — redescobrindo ou reinventando a história de Portugal, desembaraçando a teia das diferenças étnicas e culturais, que tinham estado escondidas atrás de um verniz espesso de ideologia nacionalista. (…) Temos, no entanto que reconhecer, que a reflexão sobre a identidade nacional tem sido interpretada por vezes literalmente, pelo uso de capas com brilho para reflectir a vaidade do cliente — ou a cara do designer. (…) Há vinte cinco anos, o director de uma agência de publicidade poderia informar que não havia mercado para tal, no sentido moderno (em contrapartida houve e ainda há, felizmente, bastantes mercados no país com verdadeira fruta e legumes, não normalizada, porém belíssima de se ver e ainda melhor de se saborear.” Robin Fior, 1999
Com a entrada de Portugal para a CEE, para o Mundo que lhe estava vedado, muitos temeram a normalização. Com o desenvolvimento tecnológico, as primeiras escolas de ensino de Design de Comunicação, separado das artes visuais, o design português finalmente podia olhar lá para fora e tentar importar material e estilos. Esta revolução torna-se então digital. O design é um indicador do estado das coisas e da forma como a sociedade absorve a inovação(ou talvez seja a novidade), porque tenta sempre actualizar-se. E em Portugal, cresce a obsessão por compensar o tempo perdido com a ditadura Nacionalista. Perde-se gradualmente a militância, a euforia dá lugar à depressão e à quebra dos laços de identidade, que anteriormente eram forçados em simbologias nas quais já não nos revemos, e às quais tentamos escapar.
Cartaz turístico
O cartaz é de João Abel Manta, data de 1975. É uma nova versão dos cartazes de propaganda do SNI, ao Algarve. É também um dos trabalhos mais bonitos feitos no período pós-revolução, uma reflexão sobre a anterior propaganda ao país, feita pelo Estado Novo, subvertida, pelos ideais de liberdade. Diz “turismo novo” e SNI (secretariado nacional de informação) tem um traço em cima. O período pós 25 de Abril foi um período riquissímo em manifestações na rua, e este cartaz de Manta, tira partido disso, ao mesmo tempo que não esquece o passado.
ser do contra
Este texto de António Ferro, é pois exemplo de um texto “tal como a liberdade, a submissão é impossível sem este suporte ou, se quisermos, este excesso mítico, onde tiranos e revolucionários extraem instrumentos para a sua acção, ainda que num caso ela seja opressora e no outro possa ser libertação.” (Diogo Pires Aurélio). O período da libertação a que se refere o excerto anterior, foi acima de tudo, uma oportunidade de cidadãos comuns poderem habitar as paredes das ruas com a sua revolta e a sua vontade de mudança. Por isso, muitos dos exemplos que escolhemos para ilustrar este documento, sejam precisamente de autores anónimos.
Em comum, os cartazes e a linguagem visual do período pré e pós 25 de Abril, possuem uma construção essencialmente simbólica que se constrói com base no reconhecimento generalizado desses elementos populares. Naturalmente, porque apesar das mensagens serem opostas e o contexto social muito diferente, seria complicado arrancar de um momento para o outro esse passado, e alterar por completo todo o carácter figurativo até então assimilado. O cartaz de João Abel Manta em que um elemento do povo troca de posição e se confunde com um elemento militar, é exemplificativo da utilização simbólica dos elementos: a arma do militar é trocada com o instrumento de trabalho do camponês. Outro exemplo, de Sérgio Guimarães, onde uma criança coloca um cravo no cano de uma arma, sendo este um dos primeiros exemplos do uso da fotografia produzida, cuja acção se tornaria mito da revolução. Um outro cartaz emblemático, da autoria de Vespeira, representa um jogo, semelhante ao jogo do galo, mas aqui um jogo de linguagem entre POVO/VOTO. Este é um cartaz essencialmente tipográfico dizendo: “não o jogo da reacção, vota pela Revolução” – incita a participação activa no jogo. Sebastião Rodrigues assina também um cartaz onde a bandeira portuguesa se intersecta formando um V de Vitória, dizendo depois, simplesmente, 25 de Abril. Se pensarmos nestes exemplos todos, percebemos que os cartazes partidários que se seguiram são essencialmente não-figurativos, de rápida apreensão e essencialmente tipográficos. Nos cartazes não havia (como actualmente acontece) distinção ideológica implicíta e eram inclusivé bastante pobres tanto na concepção gráfica como na mensagem transmitida.Parecia que o entusiasmo inicial se tinha esmorecido e era tempo agora de se falar de coisas sérias por isso não havia espaço para mensagens menos óbvias. Gradualmente a fotografia é apropriada de tal forma a ir arrumando as ilustrações de artistas plásticos de Abril. Excepção feita para os cartazes da UDP, muito característicos pelo uso de técnicas de baixo custo como o stencil.
Por tudo isto, ser do contra pode passar por formas de fazer, de produzir. Na forma como fazemos, como produzimos linguagens, pode estar a resistência.
